A
coluna A TORTO & A DIREITO tem sua âncora, por princípio, no
Direito. E foi com base nesse tema que excursionou algumas vezes na
MPB, em busca de letras de canções que tenham algo a ver com suas
passagens.
“Apois não é” que, por conta disso, alguns leitores (dos bons)
querem-me fazer historiador de música popular, mesmo que, no caso, se
trate do processo criativo de uma valsinha, nada afinada a leis,
códigos, tribunais, crimes ou penalidades. Simplesmente, romântica.
Um colaborador, empresário da área imobiliária em Salvador, engenheiro
Pedro Costa, afirma que estamos atingindo “o primeiro lugar de
audiência” e pede para dar espaço a uma história interessantíssima de
nosso cancioneiro, ou seja: a troca de correspondência entre os dois
monstros sagrados, Vinicius de Moraes e Chico Buarque de Holanda, que
antecedeu a aprovação final da letra de “Valsinha”, criada pela dupla.
São duas cartas, verdadeiros “achados”, pois já completam 39 anos, que
representam um dos mais valiosos “making off” de nossa MPB.
Leia e, no final, confira ainda a versão oficial, última forma do texto que prevaleceu, e está aí, gravado:
Carta de Vinicius de Moraes para Chico Buarque
“Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971
Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque
achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre
aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive.
Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo,
me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e lá se
foi a carta para Buri, 11.
Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou
mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada
geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas.
Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa hippie", porque
parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo
moderno à valsa, brasileira e antígona. Que é que você acha? O pessoal
aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia.
Escreva logo, dizendo o que você achou.
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Valsa Hippie
Proposta de Vinicius de Moraes
“Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente
Do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia
Como era mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto;
Pra seu grande espanto disse:
Vamos nos amar.
Aí ela se recordou do tempo
Em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a bailar.
E logo toda a vizinhança
Ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura,
E muita gente jura que se iluminou.
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos
Como não se ouviam mais,
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.
De Chico Buarque para Vinicius de Moraes
Caro poeta,
Recebi
as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando
aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também
porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o
maior entusiasmo, pedindo bis e tudo.
Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o "Apesar de você".
Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a
discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha
opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não
gostar foda-se, ou fodo-me eu.
"Valsa hippie" é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação
de barra, com tudo que há de hippie por aí. "Valsa hippie" ligado à
filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie,
para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra
frente de se usar roupa e cabelo.
Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso
personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar
mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que
ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é
o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário
e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer
dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou "xingou" mesmo)
a vida tanto e convidou-a pra rodar.
"Convidou-a pra rodar" eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é
dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando
a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a
tesão da trepada final. "Pra seu grande espanto", você tem razão, é
melhor que "para seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens.
Vamos lá:
Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do
som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. E para
ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira
sílaba.
Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais
agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que
ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta,
não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui
para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à
primeira vista.
É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha
letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que,
enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão
imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não
suspeitávamos.
Ainda baseado no argumento acima, prefiro o "abraçar" ao "bailar". Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.
A
terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo"
em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último
versos onde você diz "e cheios de ternura e graça" em vez de "e
foram-se cheios de graça". Agora, estou pensando em retomar uma idéia
anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça.
Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e
graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o
probleminha da junção "em-estado", o "em-e" numa sílaba só. Que é o
mesmo problema do "começaram-a".
Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira
de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores
danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção
de saco e responda urgente.
Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa
valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão
aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me
permitisse, por que deu bolo com o "Apesar de você", tenho sido
perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um
sarro.
É claro que não vendeu tanto quanto a "Tonga", mas a "Banda" vendeu
mais que o disco do Toquinho solando "Primavera". Dê um abraço na
Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre
shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor.
Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.
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Valsinha
Proposta de Chico Buarque
“Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto
Era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto,
Pra seu grande espanto
Convidou- a pra rodar
Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo
Não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz."
)--------------------------(
Versão Oficial Gravada
Valsinha
Chico Buarque / Vinícius de Morais
Um dia, ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida
Tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto,
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar.
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça,
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.