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13.04.2010

A TORTO & A DIREITO No 91

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A TORTO & A DIREITO No 91 
                             
                                                           Locutores de supermercados


http://direitoce.com.br/images/stories/palavras.jpgVamos lá. Eu sou locutor, desde os 13 anos de idade, quando iniciei o programa experimental “Esperanças do Brasil”, de cunho estudantil, através de Rádio Difusora de Caruaru, minha terra natal. De lá para cá, são mais de 50 anos de experiência em microfone, o que me faz, em princípio, uma pessoa diferente das demais. Digamos, mais ligada nesses aspectos que um cidadão comum. Ledo engano. Acabo de verificar, por uma série de textos que me caíram à mão, que tem muita gente mais com os ouvidos atentos ao problema.

Trata-se da zoeira que se estabeleceu nos super e hipermercados por conta de anunciadores de ofertas, apregoando com insistência as mercadorias e seus preços, num espaço que deveria ser clean, moderno e sofisticado, com música ambiental e discreta, como já foi um dia no passado. E, assim, nos induzindo a um consumo de classe.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/microfone-sem-fio.jpgHoje os nossos Bompreço, Carrefour, Pão de Açúcar, Extra e Center Box vem se transformado em primos ricos dos armazéns da General Sampaio, Beco da Poeira e Major Facundo, em Fortaleza; das feiras dos tecidos da Baixa dos Sapateiros, em Salvador; dos tabuleiros da Rua Direita, Duque de Caxias ou São José, no Recife.

Ainda fosse a força brejeira dos pregões de antigamente, a gente perdoava, como nos célebres “Chora menino pra comprar pitomba”, “Chá preto e pente”, Cocada e água fria”; “Va-ssou-ra! Va-ssoureiro!... Espanador, vasculador, colher de pau, esteira de angola, rapa-coco e gréia”, "Ver-du-rei-ro! Banana prata madurinha!"; “Correio e O Povo”; ah, lá isso é outra coisa. Mas não: quase sempre os locutores limitam-se a repetir o texto impresso dos tablóides semanais, num chove-no-molhado improdutivo, ridículo e desnecessário.

http://direitoce.com.br/images/stories/gondolas_para_supermercado_02g.jpgE a performance vocal dos rapazes? Ai, coitados. Todos talhados no tom dos seus colegas de FMs comerciais, cópias pioradas de um padrão de voz impostada e nasalada. “Gentem!!! Aproveite as ofertas do balcão frios.”  Aí, nesse ponto, você torce para não aparecer na frase uma coisa tipo “mor-tan-dela” ou “sal-chi-cha”, o que não acontece só por milagre.

Eu também tenho meus acessos demissionários. Incomodado com a má qualidade da locução, além do que o sujeito já me enche o saco “de ofício” com suas “ofertas”, no mais das vezes desonestas, minha ideia é denunciar à gerência a má qualidade do locutor. Afinal, não me falta autoridade para isso. Mas termino me apiedando do profissional.

http://direitoce.com.br/images/stories/flv_greengrocery.jpgBem, e por que considero desonestas algumas ofertas? Porque, atrás de um preço menor, geralmente se esconde problemas graves de qualidade no produto. Dou como exemplo o Bompreço, que, certa vez, ofereceu o quilo do feijão carioquinha por R$ 0,99;  e, ao verificarmos em casa, havia pelo menos 3 diferentes espécies de grãos no mesmo saco (carioquinha, corda e fradinho), sem falar em algumas estranhas sementes de milho (!), tudo junto. No Extra, entrei no apelo de um extraordinariamente generoso pedaço de Coxão Duro e... levei. O preço realmente compensador. Em casa, no assado, a carne mostrou-se de estranha consistência e amarga, sinal de afetação em sua conservação.

Mas tem uma coisa que eu não admito e nisso o locutor é mais vítima que algoz. São as falhas intermitentes no microfone sem fio. O cara vai falando e cortando. Cortando e falando. De tal forma que, para ouvir a frase completa, é preciso que ele esteja passando no seu corredor, ao seu lado, na sua gôndola.

Acontece que não fui eu quem começou essa pendenga. A nossa amiga, escritora pernambucana Tereza Halliday, correspondente de A TORTO & A DIREITO no Recife, escreveu este artigo abaixo no Diário de Pernambuco. Depois dela, dois irmãos Mastroianni, assíduos freqüentadores de supermercados, um no Recife outro em São Paulo, também se manifestaram. Eu vim por último.

E se estou aqui em primeiro lugar é unicamente porque o espaço me pertence. Minhas desculpas a eles, a quem cabe o mérito de terem ousado colocar no papel, em primeiro lugar, minhas velhas idiossincrasias mercantis e auditivas. Leia a opinião deles:



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                                               Falta Simancol nos Supermercados
 
                                       
                                                                                                        Tereza Halliday
                                                                   
                                                                                                       Artesã de Textos
 
 
 
http://direitoce.com.br/images/stories/microfone_sem_fio_cores.jpg“Para quem ainda desconhece que Simancol não é um produto de limpeza, esclareço ser invenção antiga de humoristas do quotidiano para designar um remédio que curaria certos comportamentos indesejáveis, demonstrados persistentemente, seja por ignorância, seja por teimosia. Daí dizer-se que alguém precisa ´tomar chá de Simancol`, a fim de se mancar.  Ou que ´Fulano não tem mancômetro` -  um hipotético medidor de razoabilidade para mostrar ao contumaz até onde deve ir e quando está bom de parar.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/coca_cola11.jpgOs supermercados demonstram carência de mancômetro ao manter, como tática de vendas, o assédio auditivo a seus clientes, anunciando incessantemente produtos dentro das lojas. O bla-bla-bla vem com impostação de voz de animador de auditório ou palhaço de circo, usando surrados bordões:
 
“Vá logo! Não perca! Oferta sensacional! Apenas tantos reais”. Tática manjadíssima de sedução comercial, instrumento de tortura mental para extrair da vítima o ato de compra. Acrescente-se a onipresente emissora de rádio interna - garota propaganda travestida de canal de utilidade pública.  Afrontam a lei da poluição sonora.
 
Todos os caixas a quem perguntei como agüentavam aquilo o dia inteiro disseram que aprendem a ´desligar` mentalmente, senão o estresse seria demais. Ponto positivo para eles, que nos tratam com cortesia e paciência, mesmo submetidos a tais condições de trabalho. Alguns fregueses também conseguem desligar-se das mensagens matraqueadas.
 
Outros, saem o mais rápido possível, azucrinados. Já se foi o tempo em que dava gosto ir a supermercado – era fresquinho, com suave música de fundo. Diziam até que o repertório romântico, tocado baixinho, induzia a comprar mais. Hoje, somos vítimas de estupro auditivo – penetração dos ouvidos, à força, por anunciantes tagarelas. Por que não nos deixam fazer compras sossegados?
 
http://direitoce.com.br/images/stories/bananas.jpgO esgotamento físico e mental depois da ida ao supermercado pode ser atribuído à má circulação do ar e à poluição sonora. Nem toda ideia de marqueteiro bem-intencionado é boa. Um espaço de loja abarrotado de som, com assédio comercial de duvidosa eficácia é uma ideia genial? Diretores e gerentes dessas macro-lojas precisam tomar Simancol. Estão aí as novas disposições do Ministério Público em prol de ambientes despoluídos de sons tóxicos, como as mensagens publicitárias impostas em lojas e ruas.
    
É árduo administrar supermercados e ter de mostrar serviço às instâncias superiores da empresa, na matriz. Mas não é somente o patrão que precisa ser satisfeito. O cliente também deve ser respeitado e cativado com um ambiente agradável de ficar. Quando ele/ela sente-se bem, sem calor, nem assédio de som, curtindo suave música de fundo, compra mais e fala bem da loja. Se os supermercados, inteligentemente, tomarem Simancol, novas diretrizes hão de melhorar os locais de compra, promover o bem-estar dos freqüentadores e até conseguir o tão almejado aumento de vendas.”
terezahalliday@yahoo.com

Do Diário de Pernambuco, 12/04/2010.


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                                      A Propósito de Poluição Sonora em Supermercados


                                                                                                                   Giovanni Mastroianni


http://direitoce.com.br/images/stories/supermercado_interior.jpg“A propósito de poluição sonora em supermercados, abordada pela amiga Tereza Halliday e pelo mano Giuseppe, creio  que, involuntariamente, fiz, pelo menos um desses locutores, procurar outra profissão. Aliás, era uma locutora. Acredito que hoje não é mais. E explico o porquê nessa ´estorinha`: certa moça, metida a intelectual, passava o dia anunciando, em um desses ´empórios`: ´produto tal com duzentas gramas`, ´produto qual com trezentas gramas` e assim ela distribuía quatrocentas, quinhentas etc. gramas para todo mundo.

De nada adiantava eu asseverar que ´grama`, unidade de massa,  é uma palavra do gênero masculino e que, anunciando como ela estava vociferando, agredia a clientela, chamando as pessoas de cavalos ou burros.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/supermercado_gondolas.jpgTambém, não resolvia ela prometer que iria se ´policiar`, pois bastava eu entrar de surpresa no supermercado e ela já estava agredindo os clientes, convidando-os a comprar ´grama` para degustarem em casa.

Não encontrei outro caminho a não ser registrar o fato, depositando meu ´protesto` em uma daquelas urnas de sugestões. Acredito que a coisa funcionou.

Dias depois, ao retornar ao supermercado, encontrei um ´moreninho`, que está por lá até hoje e, não sei como, já me conhece e, todas as vezes que me vê, anuncia com todo seu pulmão: ´leite condensado em caixa, com duzentos gramas, por apenas...´, ´leite em pó com quatrocentos gramas por somente...´

Não desejei que isso acontecesse, mas imagino que a essa altura dos acontecimentos aquela pobre moça esteja  com uma gramática na mão, comendo grama para aprender a se expressar. Coitada!”
 
 
Giovanni Mastroianni
Advogado e jornalista

                             
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                                                            Estupro auditivo


                                                                                             
                                                                                                         Giuseppe Mastroianni


Amiga http://direitoce.com.br/images/stories/microfone1.jpgTereza:

“O estupro auditivo praticado nos supermercados é, pelo que observo a partir da leitura do seu artigo, uma instituição nacional. Freqüentador assíduo que sou desses estabelecimentos, sofro essas agressões constantemente, vítima das grandes redes: Carrefour, Extra, Futurama...

O ´comunicador´ que havia no Extra Hipermercado era tão ruim, além de chato, que por duas vezes coloquei mensagens de protesto na caixa de sugestões. Desconheço se foi por minha influência, mas o moço foi substituído... por um ainda pior. Todos têm uma coisa em comum: o complexo de Silvio Santos.

Moro, hoje, nas proximidades de Cotia, município da Grande São Paulo onde residi por quatro anos.  Por haver adquirido alguns hábitos na sede, como tratar de dentes, fazer exames laboratoriais e cortar cabelo, vou sempre lá (pois dista apenas 20 km. de minha moradia), geralmente de ônibus (tenho bilhete magnético de idoso, adquirido à época de residente). Usa-se intensamente em Cotia aquele primitivo sistema de carros sonoros fazendo propaganda, como havia no interior dos nossos tempos.

Com uma agravante: a potência dos alto-falantes, explodindo em decibéis que azucrinam mais do que atraem clientes aos estabelecimentos dos anunciados.
 
Além destes há os locutores fixos, nas portas de lojas e açougues, e aqueles que eu mais detesto, embora não empunhem microfones: os cobradores das lotações que fazem o transporte coletivo, apregoando os destinos de cada veículo. 

Felizmente, aqui em Sampa esses tipos de poluição sonora são proibidos. Mas basta se cruzar as divisas de municípios vizinhos para a aberração poder ser constatada.”

Abraços,
Giuseppe Mastroianni
Maestro, pianista e arranjador
 


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