Há
precisamente 46 anos atrás, eclodia o movimento militar, com o apoio
dos Estados Unidos e políticos e segmentos civis da direita que viria a
se denominar a “Revolução de 31 de Março”, o que de pronto já era uma
farsa, pois de fato, foi às ruas somente em 1º de abril, o Dia da
Mentira. Na verdade, um golpe articulado pelo alto comando das Forças
Armadas em combinação com governadores de oposição ao presidente
democraticamente eleito, João Goulart, como Carlos Lacerda, do Rio,
Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Ademar de Barros, de São Paulo.
Para saudar a passagem da data, vamos postar na abertura de A TORTO
& A DIREITO de hoje uma crônica, escrita pelo escritor pernambucano
Antônio Falcão.
Publicado originalmente ontem (30/03) no Jornal do Commercio, do
Recife, com o título “Não. Não dá para esquecer”. Neste texto o autor
rememora fatos chocantes da tomada do poder na capital pernambucana,
sede do IV Exército e centro de efervescência política, já que o estado
era governado pelo político Miguel Arraes e se constituía em
tradicional núcleo de esquerda, desde a criação das Ligas Camponesas,
do deputado Francisco Julião, movimento rural de caráter popular
inspirado na Revolução cubana.
Leia aqui:
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Não, não dá pra esquecer
Neste
1º de abril - para uns, dia da mentira -, faz 46 anos que as trevas
enodoaram o País e respingaram na Nação. E, por mais que eu tente, não
dá pra esquecer esse negrume. Sim, é-me proibitivo, não posso.
Tampouco, em respeito à humanidade, devo deslembrar os execráveis 20
anos de ditadura.
Como banir da memória a estupidez da fuzilaria contra uma passeata de
estudantes e populares na rua que veio a ser a Avenida Dantas Barreto
do Recife? Lá, o Exército Brasileiro assassinou Jonas Albuquerque -
adolescente que militava comigo na base comunista do Ginásio
Pernambucano - e Ivan Aguiar, calouro da escola de engenharia, filho do
finado companheiro Severino (um solidário abraço, Nadir).
É-me impossível olvidar que pessoas como Miguel Arraes, governador
pernambucano, e Jango, presidente da República, foram expulsas pelos
milicos golpistas desses cargos que ocupavam legalmente pela vontade do
povo. Isso sem falar em mais políticos, líderes sindicais, estudantis e
comunitários, todos comprometidos com a democracia e a liberdade, que
seriam cassados, presos, mortos, postos no anonimato, refugiados em
embaixadas...
O
que dizer das cenas selvagens contra o sexagenário Gregório Bezerra nas
ruas de Casa Forte, onde um torpe tenente-coronel comandava o martírio
que horrorizou pela tevê as populações recifense, brasileira e mundial?
Enquanto esse ato abjeto era perpetrado contra o ícone comunista, eu
tentava em vão organizar a resistência ao golpe - sobretudo em
Palmares, cidade ocupada desde o 1º de abril por um batalhão militar,
sediado em Maceió. E, pasmem!, ingenuamente armado com um mísero Taurus
38, revólver ótimo pra caçar passarinho.
Dias depois, no xadrez do Hospital do Exército - onde fui torturado
(viram isso, entre outros, o escultor Abelardo da Hora e o jornalista
Milton Coelho da Graça) - ouvi uns oficiais falarem com indignação do
suplício do honrado patriota Gregório, que neste 2010 faria 110 anos de
existência, um homem "feito de ferro e de flor" no verso de Ferreira
Gullar.
Com prisão preventiva decretada, homiziei-me em São Paulo, onde retomei
contato com o Partidão. E dele passei a dissentir em 1967, quando
Marighella e outros nomes de peso deixaram o comitê central pecebista
pra aderir à luta armada, já que o regime militar se fechava ainda mais
com o tempo e assim o exigia as circunstâncias políticas da esquerda de
então.
Em
paralelo, entrei nas faculdades de ciências sociais da USP e de direito
da PUC/SP. Numa, de memoráveis brigas com a polícia na rua Maria
Antônia, noutra, celeiro de lideranças como Zé Dirceu e Travassos,
perdi José Wilson Lessa Sabag e Carlos Eduardo Pires Fleury, ambos
guerrilheiros, meus amigos, camaradas de ideal e colegas de curso.
Nessa fase, no Recife, para ferir Dom Helder, o padre Henrique foi
morto pela polícia. Enquanto que em mim, como em Kafka, meu coração era
um campo de batalha. E nele coabitavam militância de tarefas ousadas
(tipo cooperar em assalto a banco), vida profissional, estudos, algumas
mulheres, a nítida e (ainda hoje) intacta repulsa à opressão e aos
opressores.
Assim, quando 1973 chegou, dei adeus às armas - com as guerrilhas quase
extintas pela repressão -, vi crescer o "rabo de foguete" do samba de
Chico, o rol de resistentes mortos e exilados, decidindo que o melhor
era sair daqui e fui pra França. Inclusive pelo assassinato de Luiz
José da Cunha, o Comandante Crioulo, que fora o meu amigo-irmão desde
as escaramuças estudantis recifenses de 1960, a quem tantas vezes
hospedei em Sampa e que, àquela altura, era o número um da ALN.
A clemência de 1979, bolada pela ditadura, foi aceita, sim. Só que
anistia desse calibre é coisa que se recebe. Mas não se dá. Muito menos
a algozes. Estes agiam em nome do Estado e, daí, devem responder a uma
instância pública que efetive o direito à memória e à verdade
histórica, podendo até reconciliar. Grosso modo, seria assim, mesmo
sabendo que a maioria dos chefetes militares já morreu. Do contrário,
nada de perdoar. E ninguém jamais vai esquecer o que esses gorilas
fizeram com a nossa Nação.
afalkao@hotmail.com
(*) Antonio Falcão é escritor
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Misericórdia, Fortaleza!
A
TORTO & A DIREITO tem se caracterizado por abordar assuntos mais
amenos. Mas, atendendo ao imperativo de um pedido de amigo jornalista,
residente em Fortaleza, hoje vamos tratar de sangue.
Não
aquele sangue de heróis da história brasileira que era derramado por
grandes causas, com o condão de modificar o curso dos acontecimentos,
queimar etapas de evolução política e social, como, por exemplo, o
sangue dos nossos pracinhas, que, na Itália, se imolaram pela
Democracia, na batalha aliada, devolvendo ao mundo e ao país, em
consequência, o império da lei e da ordem, com o fim da Ditadura de
Vargas.
Ou
mesmo o sangue, nem tão unanimemente aplaudido, de heróis das
guerrilhas urbana e rural deflagradas por Marighelas, Lamarcas e
Dilmas, anos mais tarde, na tentativa de devolver o país aos seus
verdadeiros rumos de pátria livre e soberana, sob a égide da
Constituição, contra a Ditadura Militar.
Vamos
falar de um sangue inútil, um sangue sem causa, derramado todos os dias
sobre o asfalto por inocentes vítimas do acaso. Gente que paga o preço
tão somente do simples fato de existir, estar ali e agora, diante do
arbítrio de bandidos, num jogo de porrinha de vida ou morte, escolhidos
como alvo fatal de intentos malignos.
Refiro-me ao pobre cidadão ou cidadã de Fortaleza, essa cidade que,
quando aqui cheguei para prestar vestibular, no início dos anos 60, era
apenas uma pacata e provinciana capital, onde, depois das 5 horas da
tarde, todos botávamos as cadeiras na calçada e íamos papear sob a
aragem fresca que vinha do mar.
Onde
se andava a pé, em perfeita segurança, por longos quarteirões, poupando
a passagem dos ônibus, poucos e ruins. Onde se podia namorar nos bancos
de praças e jardins, sair da última sessão de cinema e entrar pela
noite na conversa boêmia dos TTs das madrugadas e Augustos Morcegos, na
Praça do Ferreira.
Que se passa com esse novo inferno? Aquele mesmo jornal da TV Verdes
Mares que, um dia, noticiava realizações do governo, obras edificantes,
decisões do executivo e legislativo, ações de entidades públicas e
privadas em benefício da população, não passa hoje de uma mera edição
de luxo dos Barra Pesada, Rota 22 e Cidade 190 da vida, no canal de
maior audiência da cidade.
Aliás,
a questão midiática reproduz, a meu ver, a história do ovo da serpente.
Não sei bem se a audiência do programa policial existe por causa do
crescimento exponencial do crime ou se o crime não se nutre também, em
sua origem, desse inconsciente coletivo criado nas camadas mais baixas
da população pelos famosos “15 minutos de fama”, capazes de fazer de um
simples marginal drogado com 5 reais de crack e pedalando uma Monark de
segunda mão um poderoso Senhor dos Anéis do crime.
O 38 na mão do bandido tem o condão de redimi-lo, num passe de mágica,
da impotência e fragilidade da sua condição de analfabeto, faminto,
grosseiro, racialmente e socialmente inferior, despossuído.
Quantos
anos de educação, evolução espiritual, estudos, sentimento e
civilização não separavam o criminoso “Buiú” da empresária Marcela
Montenegro? Uma ponte com dois extremos de eternidade.
Tentemos reproduzir pelas aparências: ela, uma mulher linda, com bom
berço de classe média alta, educação primorosa, boas companhias, futuro
promissor, carro de luxo novinho, uma bolsa possivelmente bem dotada.
Ele, a cara e a coragem. Valendo mais pelo mal que pudesse praticar que pelos valores da boa convivência com a sociedade.
Nada
justifica o crime, mas diante de qualquer esboço de reação, o desfecho
é inevitável. Na realidade, e naquelas circunstâncias, só a jovem
senhora tinha o que perder.
Na roleta russa em que se está transformando cada esquina desta
insegura capital, penso que o pouco que resta de segurança ao cidadão é
a sua aparência de desinteressante, de pessoa de posses mínimas, sem um
carrão de marca, do ano.
Na amostragem, para efeito da escolha do alvo pelos bandidos, você
apareceria, então, como peixe pequeno, pelo qual não se justificaria o
risco do bote de um bandido predador, senhor absoluto da situação.
E assim, feliz pelos nossos pneus estarem na última lona, a lataria do
carro apresentar os primeiros amassos e pontos de ferrugem, avançamos
incólumes para a batalha diária em que se transformou levar a esposa ao
trabalho, deixar os filhos no colégio ou trafegar num dos muitos pontos
negros a caminho de casa, do supermercado ou dos negócios.
E a esperança de que a Ronda ia mudar tudo isso, para onde foi? Cadê o
jogo duro com os bandidos que devolveu a Nova York, uma das maiores
metrópoles do mundo, a condição de cidade civilizada.
Quando lá estive, em 1975, ninguém se arriscava a sair do hotel, a não
ser em grandes grupos. Parecia um monte de escoteiros se arrastando
pela Quinta Avenida, alguns até de braços dados. “Sempre alerta!”.
Depois, veio a maior operação de que se tem notícia na história
policial americana, onde os fundamentos foram postos no combate à
corrupção na própria máquina política e policial, ao tráfico de drogas
e ao crime organizado. Os resultados foram auspiciosos. Hoje, você
passeia sozinho pelas alamedas do Central Park.
“Pelo amor dos meus filhinhos”, como diria aquele histérico locutor
esportivo, não vamos entregar a rapadura da causa da segurança ao bando
do mal. Há causas sociais no crime? Há. Não se muda isso da noite para
o dia.
Aliás, nesse capítulo, a coisa só tende a se agravar, com Fortaleza
situada entre as quatro cidades brasileiras de maior desequilíbrio
entre ricos e pobres, só comparável a cidades da Nigéria e do Sul da
África.
Mas
deve haver e pode haver mudanças na repressão ao crime. Se não podemos
extirpar o tumor, vamos aliviar a dor, pelo menos. Não pode ser tão
difícil promover uma limpeza sistemática de marginais nas áreas de
risco. Qualquer policial, por mais novato que seja, sabe bem quem são
essas figuras manjadas.
O problema é que, pelas fendas da lei, pelas deficiências do sistema
prisional, as ruas são diariamente realimentadas por essas figurinhas
carimbadas do crime. Esses deuses de barro das nossas centenas de
favelas, armas na mão e ódio na cabeça, dispostos a entrar no estrelato
da imagem de TV nem que seja pela câmera escondida do sistema de
segurança ou do CTAFor.
Viram a ousadia dos autores da saidinha que assaltaram e balearam um
aposentado que acabara de receber sua gratificação na boca do caixa, em
um banco do Centro? Eles acompanham a vítima até o interior de uma
lanchonete e balearam o senhor e roubaram o dinheiro à vista de todos.
O ladrão passou lindo, leve e solto na frente da câmera e, ainda hoje,
não parece ter sido identificado.
Pior só mesmo os facínoras que, em crimes de seqüestro, pedem o
resgate, embolsam a bolada e ainda matam a vítima. Nessa hora, em nome
da misericórdia divina, pergunto: “Até onde vamos, Fortaleza?”.
Colaborou na coluna de hoje Ayrton Rocha, jornalista, cantor e
compositor, residente em Fortaleza/Ce; e José Torres, jornalista,
residente em Caruaru/Pe.
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COMENTÁRIO - URGENTE
Recebemos hoje (29.03.2010) e publicamos abaixo, na íntegra:
Caro Giacomo Mastroianni,
Muito verdadeiro, oportuno e bem contextualizado este seu texto. É uma
pena que seja sobre um tema que não gostaríamos de estar tratando.
Sexta-feira última, a exemplo da Marcela, a minha esposa quase
contribui para aumentar está estatística nefasta. Ao sair do Bompreço,
onde seu carro estava estacionado, lembrou-se que o estoque de fraldas
da nossa neném, que completou um ano semana passada, estava perto de
acabar.
Como mãe zelosa, resolveu aproveitar para comprar mais fraldas, já que
do outro lado havia uma opção. Eis que, ao ir entrando no
estabelecimento, inesperadamente alvejam um jovem que estava ao lado
dela entrando no seu carro. Por pouco, a troca de tiros entre bandidos
e policiais não a acerta. Liga-me apavorada do interior da loja. Eu –
que estava num almoço de negócios –pedi para que ela ficasse no fundo
do estabelecimento esperando a chegada da polícia e, depois, saísse
imediatamente do local. Ela lembrou que eu dissera há pouco tempo que
ela deveria evitar aquela aérea do Papicu, nas proximidades da Av.
Santana Júnior. Mas eu também faço o mesmo alerta em relação a ir pegar
amigos no aeroporto, (em função da Raul Barbosa, cartão de visita de
quem chega na nossa Capital), trechos da Santos Dumont. Frei Mansueto,
Via Expressa e por aí vai...
Daqui a pouco, não teremos mais como nos locomover na cidade, pois em qualquer esquina poderemos pisar em uma mina...
Mas o que esperar de uma cidade cada vez mais violenta, mesmo porque
está inchando. Que tem três polícias (antes eram duas), rachadas entre
si? Acho até importante o reforço que tivemos com a efetivação do
“Ronda”. Mas se não resolvermos essas diferenças internas das nossas
polícias, a tendência são as coisas piorarem. Enquanto isso,
continuamos como alvos fáceis da bandidagem, como se fôssemos aqueles
patinhos que giram em parques de diversões como alvo das velhas
espingardas de chumbo... O pior é que os calibres que os marginais usam
são bem mais potentes do que aqueles chumbinhos contidos nas
espingardas de ar comprimido... Às vezes muito mais potentes e
sofisticadas do que as armas usadas pelos nossos policiais.
Do jornalista carioca Jonas Vieira (Rádio Roquete Pinto) dirigido a
Ayrton Rocha, autor da pauta, da matéria acima, residente em Fortaleza:
"O artigo do Giacomo, que não tenho o prazer de conhecer,
pessoalmente. Ayrton, é exato. Ele, inclusive, toca numa premissa a
que tenho recorrido muito, o problema da imprensa dando ampla cobertura
(espaço) à bandidagem tanto nos jornais, nas emissoras de rádio e,
sobretudo, na televisão.
No caso da televisão, o caso é ainda mais grave, por além do amplo
espaço sensacionalista dedicado todos os dias ao crime, ela projeta,
também diariamente, filmes em que a violência e o sexo predominam na
maioria de suas cenas, influenciando, é óbvio, o público televisivo,
em particular as camadas mais carentes da população, que não têm nem
podem ter discernimento para não se deixar contaminar pelas baixarias
exibidas, com riqueza de detalhes, pelos televisores.
Para mim, este é um dos fatores que mais tem contribuído para o
crescimento da violência, juntamente com a ausência de uma ação efetiva
das autoridades, acrescida da impunidade reinante na justiça
brasileira, soltando criminosos com fichas repletas de crimes,
repetidos não apenas uma ou duas vezes, o que já é um excesso, mas
inúmeras vezes.
Some-se a esse quadro tenebroso a praga das drogas, e está montado o
cenário completo para o desempenho avassalador para o desempenho da
hidra que inferniza as cidades e a vida de todos nós.
O Rio, felizmente, iniciou um combate duro e eficaz contra a violência,
com a polícia expulsando os traficantes de todos os redutos dos
criminosos na zona Sul ( a maioria, favelas, devendo agora agir na
zona Norte da cidade). A Cidade de Deus, na zona Leste, antes uma área
violentíssima, também foi contemplada, com êxito incontestável. Os
resultados têm sido promissores.
Por que o governo do Ceará não faz o mesmo ou adota um tratamento
parecido em Fortaleza ? Está esperando o quê ? Pela reencarnação de
Hércules ?
P.S. - No meu programa deste domingo, citando você, comentei o assunto. Assombroso.
“Quando Jonas falou do espaço que é concedido a esse tipo de noticiário
pelas Tvs da vida ou emissoras de rádio, lembro que, quando trabalhei
na Rádio Clube de Pernambuco, Depto. de Jornalismo, a matéria policial
vinha em última instância.
Só se abria espaço generoso quando o assunto realmente tinha tocado de
perto a sociedade. Por exemplo, o escândalo da mandioca com o Major
Ferreira à frente. Hoje, a troco do quê, não sei dizer, TVs e emissoras
de rádio exploram exaustivamente o noticiário policial.