Eu,
da mesma forma que a minha amiga jornalista e escritora pernambucana
Tereza Lúcia Halliday, também não faço propaganda de candidato algum
neste espaço. Até porque, mesmo sendo uma coluna assinada, carrego
comigo implícita a neutralidade do portal que a hospeda, o Direitoce,
que – por definição de seu editor-chefe – também carrega uma balança em
uma das mãos e exibe uma venda nos dois olhos.
Mas, se “dá nos nervos” da Tereza quando vê um argumento fútil e
inconsistente, como o seguinte, em mim ainda causa pior reação: leva-me
à revolta.
No caso, doi mais na carne porque a besteirada parte de dois
personagens idolatrados de nossa cultura: Caetano Veloso e Rita Lee,
monstros sagrados da inteligência da MPB.
Tereza coloca muito bem: “Qualquer candidato é criticável, mas apenas
nas suas idéias e projetos. Jamais por sua aparência física ou
background social.
As
alegações abaixo revelam preconceito, péssimo humor e argumento burro”,
contra a candidata Marina Silva como, anteriomente, contra o presidente
Lula.
O articulista José Ribamar Bessa Freire tomou as nossas dores e
escreveu uma resposta longa, mas perfeita, a quem dedico todo o espaço
de A TORTO & A DIREITO de hoje, com os agradecimentos à
correspondente no Recife, Tereza Halliday, que pinçou o fato.
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As várias fomes da Marina
por José Ribamar Bessa Freire
“Ai, meu Deus! / O que foi que aconteceu / com a música popular brasileira”?
Há
pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente
Lula da Silva, justificando: “Lula é analfabeto”. Por isso, o cantor
baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem
diploma universitário.
Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina
para presidente, “porque ela tem cara de quem está com fome”. Os Silva
não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.
Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por
pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e
contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a
aventura da existência humana.
Num
país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e
enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como
requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os
Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.
Caetano e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos.
Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas
famélicos e desescolarizados.
De um lado, reforçam a idéia burra e cartorial de que o saber só existe
se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non
para o exercício do poder.
De
outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece
de qualidades para o exercício da representação política.
A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio.
- “Venenosa! Êh êh êh êh êh! / Erva venenosa, êh êh êh êh êh! / É pior
do que cobra cascavel / o seu veneno é cruel.../.Deus do céu! / Como
ela é maldosa!”.
Nenhum dos dois – nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.
A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se
trata de um preconceito de roqueira paulista, que só vê desnutrição ali
onde nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu
cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável
xale?
Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata
de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome,
é fome de quê?
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O mapa da fome
A
primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu
sua infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o
capiroto ralou.
Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que nasceu
com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.
Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros
para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até
caçava.
Três de seus irmãos não agüentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.
Com
seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que,
mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne
vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma
rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas
quando cortava seringa no meio da floresta.
Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas
no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência
e do mundo mágico da oralidade.
Quando
contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de
tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do
Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e
escrever.
Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso
de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada
doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.
Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou
nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu
bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes,
fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT.
Exerceu
dois mandatos de vereadora em Rio Branco, quando devolveu o dinheiro
das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a
fazerem o mesmo.
Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois
mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da
floresta.
Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome.
Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o
Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo
florestal. Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias.
Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a
apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700
criminosos ambientais, desmonte de mais de 1500 empresas ilegais e
inibição de 37 mil propriedades de grilagem.
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Tudo vira bosta
Esse
é o retrato das fomes de Marina da Silva que – na voz de Rita Lee - a
descredencia para o exercício da presidência da República porque, no
frigir dos ovos, “o ovo frito, o caviar e o cozido / a buchada e o
cabrito / o cinzento e o colorido / a ditadura e o oprimido / o
prometido e não cumprido / e o programa do partido:/ tudo vira bosta”.
Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de
outra música - ‘Se Manca’ - dizendo a ela: “Nem sou Lacan / pra te
botar no divã / e ouvir sua merda / Se manca, neném! / Gente mala a
gente trata com desdém / Se manca, neném / Não vem se achando bacana /
você é babaca”.
Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice.
Numa de suas músicas - ‘Você vem’ - ela faz autocrítica antecipada,
confessando: “Não entendo de política / Juro que o Brasil não é mais
chanchada / Você vem....e faz piada”.
Como
ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de
desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê / Eu
não queria magoar você”.
A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a
ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, “ela
tem cara de professora de matemática e mete medo”. Ah, Rita Lee
conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não
usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma
potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão
fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.
Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de
fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos,
catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem
cara de vampiro. Sobra quem?
Se
for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos
ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam
saúde por todos os dentes.
Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda.
Por
que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de
cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, “il péte de santé”.
O
banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de
quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil.
Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso
não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da
resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre
da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o
exercício de liderança em nosso país.
(*) Marina Silva, a cara da fome? Esse é um
argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita
Lee me convenceu definitivamente.
P.S. – Uma leitora cricri, mas competente, que está fazendo doutorado
em São Paulo (e a tese, quando é que sai?) me lembra que a Fapeam e a
Secretaria de Ciência e Tecnologia do Amazonas constituem o lado sério
da atual política estadual, responsável, em 2007, pela primeira lei de
mudanças climáticas no Brasil.