Pelo
amor de Deus, me entendam. Não vai aqui nenhuma crítica à estatura
moral de Mário Covas. Antes pelo contrário, ao tomarmos o ex-governador
paulista como parâmetro de comparação, o fazemos justamente por
representar um dos políticos mais limpos e importantes no contexto
inspirador da nova Nação brasileira, surgida das cinzas de Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), legitimada pelas lutas contra a ditadura
das “Diretas Já” e fortalecida com o advento da Constituição Federal de
1988, que gerou, mais tarde, o cenário para o surgimento do seu
segmento político, denominado Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB).
A família de Mário Covas, pelo pleito de sua viúva, pode e deve ser
ressarcida dos enormes prejuízos sofridos no decorrer de seus anos de
banido do sistema. Esta seria uma das indenizações, se milionária,
justa, embora nem tão justas tenham sido muitas outras, destinadas a
contemplar figuras discutíveis da história dos anos de chumbo, na
política de Anistia ora em prática
O
que eu quero, em A TORTO & A DIREITO de hoje, é colocar, lado a
lado, duas posturas, dois posicionamentos bem distintos de brasileiros
de imensa estatura moral, com relação a obter benefícios pessoais em
troca de prejuízos resultantes de sua coerência e devoção à coisa
pública.
Em primeiro lugar, apresentamos a informação do pedido da viúva do
político paulista. Depois, vamos recuar na história e sentir a grandeza
de um brasileiro de pouco mais de 1 metro e meio de altura, mas que,
pelo amor à Nação brasileira e ao seu povo, travou batalhas heróicas,
padeceu sofrimentos, sacrificou mulher e filhos sem jamais permitir,
vivo ou morto, nada em troca dos cofres de um Governo que lhe negou
espaço democrático.
Um pequeno grande homem: falo de Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da
Esperança, o grande idealista do comunismo no Brasil, o líder militar
da Coluna Prestes, que teve mulher e filha vitimadas, como se sabe ( e
o moderno cinema brasileiro, com “Olga” ajudou a divulgar), pelo
ditador Getúlio Vargas.
Conheça um brasileiro de caráter, que jamais abriu mão da pureza de
suas crenças, mesmo na posteridade, negando-se a transformar em moeda
de troca uma enorme vida dedicada ao que acreditava ser o valor maior
de um patriota: a dignidade diante da opressão.
Leia, compare bem as duas situações e envie seus comentários, que serão publicados:
“O Ministério da Justiça concedeu nesta 5a.feira (04/02) anistia
política ao ex-governador de São Paulo Mário Covas. Ele teve os
direitos políticos cassados durante a ditadura militar, quando era
deputado federal.
Também foi concedido pela Caravana da Anistia, que esteve nesta
quinta em São Paulo, indenização à família de Covas referente aos dez
anos em que deixou de receber o salário de parlamentar.
O Ministério da Justiça não soube informar ao G1 o valor exato. Segundo
a Agência Brasil, o governo vai pagar à viúva de Covas, Florinda Gomes
Covas, uma prestação única de 300 salários mínimos, com o teto de R$
100 mil. Foi dona Lila Covas quem entrou com o pedido de anistia.
O ex-governador de São Paulo morreu em março de 2001, vítima de câncer.
Ele teve os direitos políticos cassados em 1969, com a edição do Ato
Institucional Número 5 (AI-5). Durante o período em que não pôde se
candidatar a cargo público, Covas atuou como engenheiro.
Ao recuperar os direitos políticos, em 1979, ele se reelegeu deputado
federal. Covas foi eleito governador em 1994 e reeleito em 1998. No
entanto, ele não pôde terminar o mandato e se afastou do governo em
2001, após a descoberta de que tinha câncer.”
Fonte: G1 – Brasília
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Pela verdade dos fatos da História
Da coluna de Hélio Fernandes – Tribuna da Imprensa
“Louvação
à carta de Anita Leocádia, e recordações de seu pai, Luiz Carlos
Prestes. Este, desde 1924 até morrer, no centro dos acontecimentos, não
sacrificou, por 1 minuto, suas convicções. Tendo em vista matéria
publicada em “O Globo” de hoje (pag.4), intitulada “Comissão aprovará
novas indenizações” e na qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e
Olga Benario Prestes, devo esclarecer o seguinte:
Luiz Carlos Prestes sempre se opôs à sua reintegração no Exército
brasileiro, tendo duas vezes se demitido e uma vez sido expulso do
mesmo. Também nunca aceitou receber qualquer indenização governamental;
assim, recusou pensão que lhe fora concedida pelo então prefeito do Rio
de Janeiro, sr. Saturnino Braga.
A reintegração do meu pai ao Exército no posto de coronel e a concessão
de pensão à família constitui, portanto, um desrespeito à sua vontade e
à sua memória. Por essa razão, recusei a parte de sua pensão que me
caberia.
Da mesma forma, não considerei justo receber a indenização de cem mil
reais que me foi concedida pela Comissão de Anistia, quantia que doei
publicamente ao Instituto Nacional do Câncer.
Considerando o direito, que a legislação brasileira me confere, de
defesa da memória do meu pai, espero que esta carta seja publicada com
o mesmo destaque da matéria referida.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes
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Comentário de Hélio Fernandes
A
carta da filha de Prestes foi publicada, o mínimo que poderiam fazer.
Luiz Carlos Prestes pode sofrer críticas, mas nada em matéria pessoal.
Quando liderou a Histórica “Coluna Prestes” de 1924 a 1926, já havia
pedido demissão do Exército. Portanto, quando o “Exército publicou a
sua expulsão, estava expulsando alguém que não poderia ser expulso, já
revertera, voluntariamente, à condição de civil”.
Era vingança pura, ato torpe, que comprometeu o Exército. É lógico que
no arquivo do Exército já constava a demissão a pedido do capitão. Que
aliás foi o mais jovem capitão de toda a História do Brasil. Pediu
demissão e foi tratar da vida, sem pedir ou aceitar qualquer
recompensa. Fato que a filha repetiu sem estardalhaço, só agora passa a
ser do conhecimento público.
Prestes errou em todas as posições políticas ou em atos que dependiam
exclusivamente de sua vontade, mas errou contra ele mesmo, não se
beneficiou de coisa alguma. Ele sempre disse: “Os interesses pessoais
não podem prevalecer acima de qualquer coisa, e prejudicar a
coletividade” E cumpriu na prática o que pregava na teoria.
Em
1930, os tenentes Siqueira Campos e João Alberto, foram a Montevidéu
(onde Prestes morava, depois de ficar algum tempo exilado na Bolívia),
convidá-lo para chefiar a “Revolução de 30”, que já estava praticamente
vitoriosa.
Prestes perguntou aos companheiros da brava Coluna: “A Revolução é
comunista?”. Siqueira e João Alberto, ficaram surpreendidíssimos, pois
a “revolução” era burguesa, aristocrática e reacionária. Mas Prestes
poderia ter comandado a Revolução, assumido o Poder, e nessas
condições, mudado os rumos do país. Não admitia, considerava isso, uma
traição. Recusou, lançou o Manifesto de fundação do partido, e em 1932
viajava para a União Soviética.
Voltou
em 1935 para organizar e desfechar a Revolução Comunista que não tinha
a menor chance de vitória. Sem recursos, desorganizada, praticamente
existindo apenas no interior da Paraíba e do Rio Grande do Norte. E no
Rio, apenas no 3º RI. (Onde hoje existe um monumento, na Praia
Vermelha).
Preso logo depois, em 1936, foi levado para a Polícia Central, onde
ficou sob as ordens do antigo companheiro de “Coluna”, o torturador
Filinto Muller. Foi o brasileiro mais torturado de todos os tempos,
ficando num vão de escada, até 1940. (Só saía eventualmente para o
julgamento no Tribunal de Segurança Nacional).
Em 1940, como o Brasil fazia parte, na Segunda Guerra, das forças
“Aliadas”, o governo soviético mandou pedir ao ditador Getúlio Vargas,
a libertação dele. Vargas não atendeu, mas mandou transferir Prestes
para a Penitenciária Frei Caneca, onde ficou até 1945.
Nesse ano, a ditadura ameaçadíssima, Vargas soltou Prestes. E este
assombrosamente, passou a defender a Constituinte com Vargas. Um
disparate completo, Prestes errava totalmente, mas por convicção.
Logo depois de solto, outra violenta contradição de Prestes, mas como
sempre coerente com suas idéias. Foi fazer um comício no Estádio do
Vasco, (ainda não existia o Maracanã), uma multidão foi ouvi-lo e saiu
de lá chorando. Prestes criticou o próprio povo, afirmou: “Vocês estão
se aburguesando, só pensam num rádio novo e mais potente ou em
geladeira”. (Textual)
P.S.
– Termino por aqui. Tudo o que escrevi é apenas louvação à posição de
Anita Leocádia. Apesar dele estar sempre longe, tive sempre boas
relações com Prestes. Na Constituinte de 1945, (meu primeiro grande
trabalho para a revista O Cruzeiro) tive ótimo contato com Prestes e os
15 deputados eleitos pelo Partidão. Escrevi: “Não entendo como é que
Prestes e Plínio Salgado ficam conversando amistosamente, e depois na
tribuna se agridem violentamente”.
P.S. 2 – No dia 25 de março de 1981, véspera do massacre das
instalações da Tribuna, que ocorreu no dia 26, tive debate com Prestes
de quase três horas, no CACO, Faculdade da Moncorvo Filho (deve estar
tudo, é claro, no arquivo da Faculdade). Lotadíssima. Como eram jovens
e estudantes estavam visivelmente a favor de Prestes, mas me
respeitavam, saímos juntos e abraçados.
P.S. 3 – Meu último contato com Prestes se deu em 1987, em Cuba. Fidel
organizou um Seminário sobre dívida externa, um dos meus assuntos
favoritos. Estavam presentes 61 brasileiros, muitos deputados,
senadores, jornalistas. Só dois discursaram: Prestes, lendo, este
repórter, como sempre, de improviso. Lula também presente, já candidato
a presidente em 1989, não falou. Não conhecia nada do assunto.