Para fechar com chave de ouro: Zilda Arns

Nunca
antes, na (curta) história deste espaço, um assunto ganhou tamanha
importância. O debate sobre o valor da vida e da obra da “Santarrona de
Forquilhinha”, como foi rotulada Dona Zilda Arns por seu contundente
crítico Janer Cristaldo, aqui transcrito, desencadeou uma série de
reações positivas e negativas entre nossos leitores.
O melhor é que isso não para de acontecer. Continuam chegando, num
crescendo de quantidade e qualidade, novos depoimentos. Evidentemente
que A TORTO & A DIREITO não pode e nem deve se transformar num
“samba de uma nota só”.
Por isso, vamo-nos autodeterminar a encerrar com esta presente coluna (No 73) a valiosa discussão do tema.
Garantimos, no entanto, que, embora sejam os últimos, cada um dos
depoimentos abaixo está melhor do que o outro. Inteligência faz bem ao
espírito.
Aos grandes espíritos como o de Zilda Arns, de quem não sou, assumo, uma mísera migalha de seu crédito perante Deus:
)----------------------------------------------------(
Tereza Halliday – artesã de textos
“Li o artigo do sr. Janer Cristaldo sobre seu asco à Igreja Católica,
travestido de crítica malajambrada à dra. Zilda Arns. Minha leitura
foi influenciada por minha formação como analista de discurso.
Sentimentos fortíssimos são ótimos para acender o fogo de um poema ou
crônica. Mas raramente resultam num bom poema de amor ou num bom artigo
de ódio. Aliás, raiva é péssima construtora de argumentos.

Como
já não sou católica (afastei-me sem briga nem mágoa), as políticas
eclesiais das quais discordo, não me põem fogo nas ventas.
O oposto do amor não é o ódio é a indiferença. Amor e ódio estão
interligados. Daí, tenho a hipótese - hipótese - de que o sr. Janer
Cristaldo tem um caso de amor mal-resolvido com a Igreja Católica.
Talvez tenha sido traído por ela, talvez como vítima de pedofilia de
algum padre. Talvez seja um ex-seminarista que pretendeu serví-la e se
decepcionou brutalmente com ela, ou trocou de religião e está encantado
demais com a nova igreja e denigre a ex-. Ou simplesmente talvez queira
construir um espaço no terriório dos escritores com a estratégia do
sacode e arrebenta.
Embora a dra. Zilda fosse católica e representasse a Igreja, como
diretora de duas de suas Pastorais, entra no artigo ´A Santarrona de
Forquilhinha` como um bode expiatório das críticas acerbas a
princípios conservadores e até mesmo reacionários, da Igreja, que tem o
direito de ter suas próprias diretrizes enquanto nós temos o direito de
não aceitá-las.

Aliás,
quem chama Zilda de santa (mesmo com o termo pejorativo
´santarrona`) é ele. Outro detalhe para psicanalisar. A reverência a
Zilda Arns não nos leva necessariamente a santificá-la.
E o reconhecimento de que Madre Teresa era politicamente conservadora,
não desfaz a sua ação humanitária - ela não perguntava se o necessitado
era de esquerda ou de direita antes de ajudar. O necessitado era
apenas um desgraçado precisando de pão, remédio e atenção.
Ao criticar a sopa distribuída aos miseráveis, o autor demonstra que nunca passou fome na vida.
Outra derrapada foi a infeliz expressão ´Madre Teresa tupiniquim`. Na
juventude, eu também aplicava esse adjetivo para zombar de desmantelos
do Brasil. Depois me manquei que estava ofendendo gratuitamente uma
tribo dos nossos primeiros habitantes.
Ao insinuar que a ajuda às crianças pobres faz parte de um plano
maquiavélico de Igreja em prol da explosão demográfica, o sr. Cristaldo
demonstra desconhecer que Zilda foi chamada pelo irmão, o cardeal
Arns, para esse trabalho de ajudar a infância carente, porque o Cardeal
foi solicitado pelo então diretor da Unicef James Grant a ajudar o
programa mundial da ONU em prol do bem estar das crianças. A idéia foi
da Unicef, não da Igreja. O cardeal foi convencido pelo sr. Grant a
colaborar.

A
ONU também é criticável em muitas de suas políticas. Janer Cristaldo
também poderia distilar seu veneno construindo maus argumentos contra
ela.
Melhorar a situação das crianças já nascidas no mundo não me parece um crime.
Na minha experiência de analista de discurso, as críticas mais bem
construídas, confiáveis e passíveis de influenciar são aquelas feitas
com mais racionalidade do que emoção. Claro que a emoção entra como
tempero mas, quando em excesso, estraga o prato, como todos sabemos.
A única coisa que posso defender no texto do sr. Cristaldo é o seu direito de expressar sua opinião.
No mais, recordo a regra de avaliação que minha orientadora de tese de
doutorado ensinou: esse texto é apenas uma espressão do estado dos
hormônios do autor no momento em que o escreveu? Ou é realmente um bom
texto?”
Tereza Lúcia Halliday, Ph.D.
Artesã de Textos
Recife/Pe
www.terezahalliday.com
)------------------------------------------------------(
Fernando Cartaxo – sociólogo e jornalista

“Fico
grato pela recepção de minha matéria pelo amigo Sabino Henrique. Dei
uma pequena olhada no que escreve o missiva terrorista. Nada sabe do
que fala. Não suportei seguir na miséria de seu texto. Quem escreve
sobre o desconhecido sempre comete injustiça. É pura ilusão imaginar
que a Dra. Zilda Arns fosse uma pessoa arcaica e medieval.
Lembro-me dela me contando uma estória engraçada, que revela sua leveza
e seriedade com a vida. Contava que os agentes da Pastoral da Saúde
ensinavam como usar a camisinha, além de utilizarem o colar da
fertilidade, que tinha cores que identificavam os dias férteis que se
deviam evitar o sexo para que o planejamento familiar fosse uma decisão
autônoma dos casais.
O engraçado é que o exército de agentes da Pastoral da Criança que
atuam junto a imensas comunidades carentes, utilizavam um cabo de
vassoura para ensinar como usar a camisinha. Mas a ingenuidade humana
ainda é algo existente.

Ela
nos falava, com certa ironia e um riso matreiro, que voltando após
alguns anos a certa comunidade, foi abordada por um casal que revelou
que realizou todo o ensinamento para evitar a procriação desmedida, mas
que os esforços não deram certo, pois nasceram mais duas crianças. O
fato é que o casal utilizava a camisinha literalmente no cabo de
vassoura caseiro, fazendo o amor sem muitas preocupações.
Daí que certos mitos só servem para destruir a imagem de figuras
humanas que existem em outros patamares, próximos a divindade e muito
distante da mediocridade de certos escribas do mal.
É bom saber também que ela sempre defendia a educação como a melhor
forma de planejamento familiar. Algumas mentes doentias não entendem o
Brasil sob a perspectiva sociológica e cultural, utilizando um jogo
barato de palavras agressivas e banais. O pior é que essas figuras que
nada acrescentam a existência humana ainda tem espaço para elocubrarem
suas mentiras e ataques desumanos e sem ética.
Isso é porque não consegui tragar nem um terço de palavras tão desleais e incrédulas.

Em
sua visão somente uma educação de qualidade e universal daria conta de
um controle sensato e autônomo da natalidade. Não é por dogma religioso
que as classes pobres se enchem de filhos, mas por falta de informação
e como consequência das deficiências estruturais dos serviços públicos
de educação e saúde.
O resto é pura banalidade e não merece crédito e nem comentários.
A Dra. Zilda Arns era uma santa guerreira, sem preconceitos e dogmas
irracionais. Mas é claro que representa a Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil em diversos fóruns representativos. Era contra o
aborto, pois acreditava firmemente que a melhor solução era a
prevenção. Ou alguém acha que o aborto não é uma intervenção jurássica
em pleno século XXI, quando se dispõe de diversos métodos para se
evitar a gravidez indesejada.
Paz e bem, como diria a Zilda Arns
Um cordial abraço, Fernando Cartaxo”
Fernando Cartaxo
Sociólogo e jornalista
Fortaleza/Ce
fernandocartaxo@uol.com.br
Continuem colaborando.