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29.01.2010

A TORTO & A DIREITO No 73

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A TORTO & A DIREITO No 73
              

                                                 Para fechar com chave de ouro: Zilda Arns
 
 
http://direitoce.com.br/images/stories/zilda_arnes_sanduiche_de_amor.jpgNunca antes, na (curta) história deste espaço, um assunto ganhou tamanha importância. O debate sobre o valor da vida e da obra da “Santarrona de Forquilhinha”, como foi rotulada Dona Zilda Arns por seu contundente crítico Janer Cristaldo, aqui transcrito, desencadeou uma série de reações positivas e negativas entre nossos leitores.

O melhor é que isso não para de acontecer. Continuam chegando, num crescendo de quantidade e qualidade, novos depoimentos. Evidentemente que A TORTO & A DIREITO não pode e nem deve se transformar num “samba de uma nota só”.
 
Por isso, vamo-nos autodeterminar a encerrar com esta presente coluna (No 73) a valiosa discussão do tema.

Garantimos, no entanto, que, embora sejam os últimos, cada um dos depoimentos abaixo está melhor do que o outro. Inteligência faz bem ao espírito.
 
Aos grandes espíritos como o de Zilda Arns, de quem não sou, assumo, uma mísera migalha de seu crédito perante Deus:
                                        
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                                                     Tereza Halliday – artesã de textos

“Li o artigo do sr. Janer Cristaldo sobre seu asco à Igreja Católica, travestido de crítica malajambrada à dra. Zilda Arns.   Minha leitura foi influenciada por minha formação como analista de discurso.
 
Sentimentos fortíssimos são ótimos para acender o fogo de um poema ou crônica. Mas raramente resultam num bom poema de amor ou num bom artigo de ódio. Aliás, raiva é péssima construtora de argumentos.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/crianca_esperanca_faca_parte_do_nosso_sonho.jpgComo já não sou católica (afastei-me sem briga nem mágoa), as políticas eclesiais das quais discordo, não me põem fogo nas ventas.
 
O oposto do amor não é o ódio é a indiferença. Amor e ódio estão interligados. Daí, tenho a hipótese - hipótese - de que o sr. Janer Cristaldo tem um caso de amor mal-resolvido com a Igreja Católica.
 
Talvez tenha sido traído por ela, talvez como vítima de pedofilia de algum padre. Talvez seja  um ex-seminarista que pretendeu serví-la e se decepcionou brutalmente com ela, ou trocou de religião e está encantado demais com a nova igreja e denigre a ex-. Ou simplesmente talvez queira construir um espaço no terriório dos escritores com a estratégia do sacode e arrebenta.
 
Embora a dra. Zilda fosse católica e representasse a Igreja, como diretora de duas de suas Pastorais, entra no artigo ´A Santarrona de Forquilhinha`  como um bode expiatório das críticas acerbas a princípios conservadores e até mesmo reacionários, da Igreja, que tem o direito de ter suas próprias diretrizes enquanto nós temos o direito de não aceitá-las.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/crianca_no_lixao.jpgAliás, quem  chama Zilda  de santa (mesmo com o termo pejorativo ´santarrona`)  é ele. Outro detalhe para psicanalisar. A reverência a Zilda Arns não nos leva necessariamente a santificá-la.
 
E o reconhecimento de que Madre Teresa era politicamente conservadora, não desfaz a sua ação humanitária - ela não perguntava se o necessitado era de esquerda ou de  direita  antes de ajudar. O necessitado era apenas um desgraçado precisando de pão,  remédio e atenção.
 
Ao criticar a sopa distribuída aos miseráveis, o autor demonstra que nunca passou fome na vida.
 
Outra derrapada foi a infeliz expressão ´Madre Teresa tupiniquim`. Na juventude, eu também aplicava esse adjetivo para zombar de desmantelos do Brasil. Depois me manquei que estava ofendendo gratuitamente uma tribo dos nossos primeiros habitantes.
 
Ao insinuar  que a ajuda às crianças pobres faz parte de um plano maquiavélico de Igreja em prol da explosão demográfica, o sr. Cristaldo demonstra desconhecer  que  Zilda foi chamada pelo irmão, o cardeal Arns, para esse trabalho de ajudar a infância carente, porque o Cardeal foi solicitado pelo então diretor da Unicef James Grant a ajudar o programa mundial da ONU em prol do bem estar das crianças. A idéia foi da Unicef, não da Igreja. O cardeal foi convencido pelo sr. Grant a colaborar.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/zilda_arns_com_indiozinhos.jpgA ONU também é criticável em muitas de suas políticas. Janer Cristaldo  também poderia distilar seu veneno construindo maus argumentos contra ela.
 
Melhorar a situação das crianças já nascidas no mundo não me parece um crime.
 
Na minha experiência de analista de discurso, as críticas mais bem construídas, confiáveis e passíveis de influenciar são aquelas feitas com mais racionalidade do que emoção. Claro que a emoção entra como tempero mas, quando em excesso, estraga o prato, como todos sabemos.
 
A única coisa que posso defender no texto do sr. Cristaldo é o seu direito de expressar sua opinião.
 
No mais, recordo a regra de avaliação  que minha orientadora de tese de doutorado ensinou: esse texto é apenas uma espressão do estado dos hormônios do autor no momento em que o escreveu? Ou é realmente um bom texto?”
                                               
 
Tereza Lúcia Halliday, Ph.D.
Artesã de Textos
Recife/Pe
www.terezahalliday.com

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                                                                       Fernando Cartaxo – sociólogo e jornalista
 
http://direitoce.com.br/images/stories/pastoral_da_crianca_logo.jpg“Fico grato pela recepção de minha matéria pelo amigo Sabino Henrique. Dei uma pequena olhada no que escreve o missiva terrorista. Nada sabe do que fala. Não suportei seguir na miséria de seu texto. Quem escreve sobre o desconhecido sempre comete injustiça. É pura ilusão imaginar que a Dra. Zilda Arns fosse uma pessoa arcaica e medieval.
 
Lembro-me dela me contando uma estória engraçada, que revela sua leveza e seriedade com a vida. Contava que os agentes da Pastoral da Saúde ensinavam como usar a camisinha, além de utilizarem o colar da fertilidade, que tinha cores que identificavam os dias férteis que se deviam evitar o sexo para que o planejamento familiar fosse uma decisão autônoma dos casais.
    
O engraçado é que o exército de agentes da Pastoral da Criança que atuam junto a imensas comunidades carentes, utilizavam um cabo de vassoura para ensinar como usar a camisinha. Mas a ingenuidade humana ainda é algo existente.
 
http://direitoce.com.br/images/stories/vassoura_danca.jpgEla nos falava, com certa ironia e um riso matreiro, que voltando após alguns anos a certa comunidade, foi abordada por um casal que revelou que realizou todo o ensinamento para evitar a procriação desmedida, mas que os esforços não deram certo, pois nasceram mais duas crianças. O fato é que o casal utilizava a camisinha literalmente no cabo de vassoura caseiro, fazendo o amor sem muitas preocupações.
    
Daí que certos mitos só servem para destruir a imagem de figuras humanas que existem em outros patamares, próximos a divindade e muito distante da mediocridade de certos escribas do mal.
     
É bom saber também que ela sempre defendia a educação como a melhor forma de planejamento familiar. Algumas mentes doentias não entendem o Brasil sob a perspectiva sociológica e cultural, utilizando um jogo barato de palavras agressivas e banais. O pior é que essas figuras que nada acrescentam a existência humana ainda tem espaço para elocubrarem suas mentiras e ataques desumanos e sem ética.
     
Isso é porque não consegui tragar nem um terço de palavras tão desleais e incrédulas.
     
http://direitoce.com.br/images/stories/-zilda_arns_microfone.jpgEm sua visão somente uma educação de qualidade e universal daria conta de um controle sensato e autônomo da natalidade. Não é por dogma religioso que as classes pobres se enchem de filhos, mas por falta de informação e como consequência das deficiências estruturais dos serviços públicos de educação e saúde.
      
O resto é pura banalidade e não merece crédito e nem comentários.
      
A Dra. Zilda Arns era uma santa guerreira, sem preconceitos e dogmas irracionais. Mas é claro que representa a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em diversos fóruns representativos. Era contra o aborto, pois acreditava firmemente que a melhor solução era a prevenção. Ou alguém acha que o aborto não é uma intervenção jurássica em pleno século XXI, quando se dispõe de diversos métodos para se evitar a gravidez indesejada.

Paz e bem, como diria a Zilda Arns

Um cordial abraço, Fernando Cartaxo”
 
Fernando Cartaxo
Sociólogo e jornalista
Fortaleza/Ce
fernandocartaxo@uol.com.br


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Obrigado Tereza Halliday e Fernando  Cartaxo.
A presença de vocês faz a coluna maior. 
Continuem colaborando.

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